 | Fernando Pessoa | Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlaçemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado, Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente. E sem desassossegos grandes.
Prefiro rosas, meu amor, à pátria, E antes magnólias amo Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo Que a vida por mim passe Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa Que um perca e outro vença, Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera As folhas aparecem E com o Outono cessam? E o resto, as outras coisas que os humanos Acrescentam à vida, Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença E a confiança mole Na hora fugitiva.
Quer pouco, terás tudo. Quer nada: serás livre. O mesmo amor que tenham Por nós, quer-nos, oprime-nos.
Nunca a alheia vontade, inda que grata, Cumpras por própria. Manda no que fazes, Nem de ti mesmo servo. Niguém te dá quem és. Nada te mude. Teu íntimo destino involuntário Cumpre alto. Sê teu filho.
Sim, sei bem Que nunca serei alguém. Sei de sobra Que nunca terei uma obra. Sei, enfim, Que nunca saberei de mim. Sim, mas agora, Enquanto dura esta hora, Este luar, estes ramos, Esta paz em que estamos, Deixem-me crer O que nunca poderei ser.
Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.
Não tenho ambições nem desejos. ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sózinho. ...
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz E corre um silêncio pela erva fora. ... Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar... ...
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura... ...
A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas.
Acordo de noite subitamente. E o meu relógio ocupa a noite toda. Não sinto a Natureza lá fora, O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas. Lá fora há um sossego como se nada existisse. Só o relógio prossegue o seu ruído. E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa Abafa toda a existência da terra e do céu... Quase que me perco a pensar o que isto significa, Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca, Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa É a curiosa sensação de encher a noite enorme Com a sua pequenez...
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. ...
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
Triste de quem vive em casa, Contente com o seu lar, Sem que um sonho, no erguer de asa, Faça até mais rubra a brasa Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. Nada na alma lhe diz Mais que a lição da raiz- Ter por vida a sepultura. ...
Grécia, Roma, Cristandade, Europa - os quatro se vão Para onde vai toda idade. Quem vem viver a verdade Que morreu D. Sebastião?
Sou um evadido. Logo que nasci Fecharam-me em mim, Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa Do mesmo lugar, Do mesmo ser Por que não se cansar?
Minha alma procura-me Mas eu ando a monte, Oxalá que ela Nunca me encontre.
Ser um é cadeia, Ser eu é não ser. Viverei fugindo Mas vivo a valer.
Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso... Falai, portanto, sem repardes que existis... ...
Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta.
O mistério do mundo, O íntimo, horroroso, desolado, Verdadeiro mistério da existência, Consiste em haver esse mistério. ...
Não é a dor de já não poder crer Que m’oprime, nem a de não saber, Mas apenas completamente o horror De ter visto o mistério frente a frente, De tê-lo visto e compreendido em toda A sua infinidade de mistério. ...
Quanto mais fundamente penso, mais Profundamente me descompreendo. O saber é a inconsciência de ignorar...
Só a inocência e a ignorância são Felizes, mas não o sabem. São-no ou não? Que é ser sem o saber? Ser, como a pedra, Um lugar, nada mais. ...
Quanto mais claro Vejo em mim, mais escuro é o que vejo. Quanto mais compreendo Menos me sinto compreendido. Ó horror paradoxal deste pensar... ...
Alegres camponesas, raparigas alegres e ditosas, Como me amarga n’alma essa alegria!
Põe a tua mão Sobre o meu cabelo... Tudo é ilusão. Sonhar é sabê-lo.
Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois, levando-me, passai!
Tudo o que faço ou medito Fica sempre na metade. Querendo, quero o infinito. Fazendo, nada é verdade.
Que nojo de mim me fica Ao olhar para o que faço! Minha alma é lúcida e rica, E eu sou um mar de sargaço.
Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada, E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada.
Foi um momento O em que pousaste Sobre o meu braço Num movimento Mais de cansaço Que pensamento, A tua mão E a retiraste. Senti ou não? ...
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...
Bom é que não esqueçais Que o que dá ao amor rara qualidade É a sua timidez envergonhada Entregai-vos ao travo doce das delicias Que filhas são dos seus tormentos Porém, não busqueis poder no amor Que só quem da sua lei se sente escravo Pode considerar-se realmente livre
Bendito seja eu por tudo o que não sei gozo tudo isso como quem sabe que há o sol
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é dele e não se cura de fora. Porque sofrer não é ter falta de tinta ou o caixote não ter aros de ferro!
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
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